17º Domingo do Tempo Comum

O nosso lecionário, neste domingo, interrompe a leitura do evangelho de São Marcos – evangelista deste ano – para que escutemos o capítulo 6º do Evangelho de São João. Tal capítulo é uma ampla e bela catequese que alguns estudiosos chamam de o “Sermão Eucarístico de Cafarnaum”.

O que acabamos de escutar – a multiplicação dos pães e dos peixes – é o episódio que permite a Nosso Senhor começar tal catequese que ouviremos ao longo dos próximos domingos. Desta forma, a intenção de Jesus ao fazer esse milagre é pedagógica, ou seja, deseja com esse sinal provar a sua divindade e ao mesmo tempo anunciar o que seria a Santíssima Eucaristia. E isso se nota pela catequese que se segue a esse milagre. De fato, Jesus prepara a inteligência deles para o anúncio eucarístico e pascal. 

Tanto é verdade que este evangelho, nos seus pequenos detalhes, nos faz recordar de Moisés e o povo de Deus: a referência ao mar, a multidão que sofre, a subida do monte, a proximidade da páscoa, o povo com fome e sede. O gesto de Jesus é contado por João tendo como pano de fundo o êxodo: a libertação da escravidão e a salvação de um povo.

Eis algumas considerações que se podem recolher das leituras bíblicas deste domingo: 

1. A Divina Providência não tira férias 

Os versículos do salmo que ouvimos recordam a fidelidade e o cuidado providencial de Deus por nós: “vós lhes dais no tempo certo o alimento” (Salmo 144, 15b). Sim, os nossos olhos se voltam para Senhor, esperam Nele, Ele é a nossa única esperança, porque Ele nunca se esquece de nós.

É importante lembra-se de que Deus tem cuidado de sua obra e, por amor, Ele a sustenta. Se Deus, por um acaso, deixasse de querer a nossa existência iríamos desaparecer. Mas o que acontece é justamente o contrário: Ele pensa e cuida de cada detalhe de sua obra e desta forma, querendo-a, a mantêm existindo.

Assim compreendemos que os milagres acontecem também no ordinário de nossa vida, através da divina providência. E isso podemos observar no “milagre” das colheitas. Santo Agostinho faz notar que a multiplicação dos pães e peixes, que alimentou tantos homens e mulheres, é um milagre que Deus continua repetindo nas sementes que são geminadas na terra, e que dão frutos e alimentam a tantas pessoas (1).

2. A partilha não empobrece 

O episódio que aconteceu com Eliseu, narrado na primeira leitura, está em profunda sintonia com o milagre realizado por Jesus. O profeta recebe de uma pessoa uma oferta de pães e grãos de trigo para o seu consumo pessoal. E num gesto de generosidade ele partilha o que ganhou com os famintos que o cercam, e no final ainda sobra

Isso nos lembra que a generosidade não empobrece, mas multiplica o dom partilhado. O mesmo acontece no Evangelho. E notem que Jesus não pede aos discípulos que façam algum milagre – o milagre é Ele quem fará! – mas pede que façam o que podem: que coloquem o que se têm em comum.

Além disso, ao multiplicar o pouco que trazia aquela criança, o Senhor nos ensina que Deus age com o pouco que somos e com ele sacia a nós e a tantos outros.

Não se deve reduzir esta página da Escritura apenas a uma exortação para dividir os bens materiais, mas se trata também de um convite a partilhar tantas coisas: os dons, as habilidades, o tempo, o que somos… Convida-nos à confiança, a colocar-nos nas mãos do Senhor, e entregar-lhe tudo o que temos e somos. Estou disposto a passar às mãos ao Senhor os meus “cinco pães e dois peixes”?

3. Virtudes que não se pode esquecer

A epístola, da qual ouvimos um trecho, é chamada de a “carta do cativeiro” – porque foi escrita por S. Paulo quando ele estava preso – e é uma espécie de resumo do pensamento paulino. E começa com um detalhe interessante: quem escreve é um homem preso por causa de Cristo. Portanto vale a pena dar ouvidos a quem é capaz de dar a vida por aquele que ama e sofrer por aquilo que ensina. 

Estes versículos são chamados de “exortação aos batizados”. Convida-nos a sermos humildes, mansos e pacientes. São Paulo nos lembra que devemos ser amáveis, não amargos ou carrancudos. Entendamos bem: isso não é uma simples lição de boas maneiras, é uma consequência lógica da nossa vocação cristã: o cristão é assim porque Cristo é assim. 

Por fim, agradeçamos ao Senhor por fazer parte da Igreja de Cristo, que como disse São Paulo, é una. E lhe peçamos a graça de permanecer até o fim nesta Santa Igreja, que professa uma só fé e um só batismo, e que anuncia o único que salva e que pode levar-nos ao Céu: Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Maria, mãe do Santíssimo Sacramento, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha)

(1) cf. Sermão 130. 

TEXTOS PARA MEDITAÇÃO

[1] O menino que deu tudo 

E como não nos admirarmos do gesto desse menino, cujo nome nem sabemos, que queria ouvir e ver Jesus e que – imagino eu – ao perceber André agitado e inquieto recordou-se que em sua sacola levava alguns pães (talvez preparado por sua mãe) e alguns peixes (provavelmente pescados por seu pai) e que num gesto de total confiança no Senhor entrega tudo nas mãos dos apóstolos?

Por esse gesto, naquele menino poderíamos como que ver uma pálida imagem de Nosso Senhor, que na páscoa do ano seguinte, também entregará não só alguns pães e peixes, mas que oferecerá tudo e se colocará inteiramente nas mãos do Pai, na hora da sua paixão. Aquele que deu tudo de si para saciar-nos a nós, seus irmãos. 

Sim, é o Divino Salvador, aquele que no deserto desta vida nos alimenta. E é através das mãos de outros “Andrés” e “Felipes”, através dos sacerdotes, que multiplicam os pães durante a peregrinação que é esta vida. Não morreremos de fome porque este Santíssimo Sacramento não nos faltará jamais. (cf. D. Ange, Le nozze di Dio dove il povero è re, Milano, 1985). 

[2] Rezar antes de comer

“Mas como é que o Cristo, quando ele está a ponto de curar o paralítico, de ressuscitar os mortos, de apaziguar o mar, não reze e aqui, em vez disso, lidando com pães, faz isso? Para ensinar que, antes da refeição, devemos dar graças a Deus”. (São João Crisóstomo, Comentário ao Evangelho de João 42, 3).