18º Domingo do Tempo Comum

Após o milagre da multiplicação, Jesus e os discípulos voltaram para Cafarnaum. No dia seguinte, aquela mesma multidão – que havia se saciado dos pães e dos peixes – vai novamente ao encontro do Senhor. E percebendo as suas intenções, ali mesmo, na Sinagoga de Cafarnaum, Jesus faz uma belíssima catequese sobre a Eucaristia, que começamos a ouvir hoje e que continuará nos próximos domingos. 

E a primeira coisa que notamos é o alerta que o Divino Salvador faz de um grande perigo: buscá-lo por interesse material. Vendo o milagre dos pães e dos peixes muitos viram em Jesus um modo fácil e rápido de resolver problemas desta vida, como a fome e as enfermidades. 

Sobre esse episódio disse Santo Agostinho: “quantos que buscam Jesus, guiados apenas por interesses materiais!” (1). Procuravam Jesus por conveniência, pelo motivo errado, e isso lhe incomoda. Aquele sinal, que deveria despertar a fé no coração daquelas pessoas, faz com que alguns corram atrás de Jesus para não ter mais problemas. 

A partir de então podemos comentar três afirmações que nos orientam, como uma bússola, a percorrer os textos bíblicos desta missa, especialmente no que diz respeito à Santíssima Eucaristia:

1. É preciso ter fé

Notem o coração duro daqueles homens. Após aquele grande milagre, eles ainda têm coragem de perguntar: “que milagre fazes para que acreditemos?” Para aqueles que não querem crer, nunca há milagre suficiente!

À pergunta: “o que fazer para realizar as obras de Deus?” Ele nos ensina: crer em Nosso Senhor. Entendamos bem, não se trata apenas de acreditar que Jesus existe – nisso até os demônios creem – mas trata-se de aceitar todos os seus divinos ensinamentos, hoje transmitidos pela Igreja Católica. 

E entre esses ensinamentos está uma importante verdade: Jesus está verdadeiramente presente no pão e no vinho consagrados na Santa Missa. Por isso que, antes de falar de Eucaristia, Jesus fala de fé. Só quem crê é capaz de reconhecer nesse pequeno e pobre pedaço de pão, nesse pouco de vinho, a Divina Presença. 

2. Pão do Céu: porque é de graça e porque vem do alto e nos leva para o alto

O maná, o pão que “choveu” do céu é um sinal prefigurativo, é uma preparação para o que seria para nós a Santíssima Eucaristia. Ao chamar a Hóstia Consagrada de pão do céu podemos entender duas coisas: já que vem do céu é de graça, não se paga por Ele, nem se conquista por mérito, além disso, vem do alto porque é alimento da vida divina que começa aqui e termina plenamente na eternidade

Jesus é o novo maná, muito maior que aquele do deserto, que saciava só a fome terrena. Eucaristia é o pão que sacia de verdade, que pode satisfazer a nossa fome de vida, de felicidade, de esperança, e mais: de vida eterna! Na comunhão nós comemos a carne do próprio Deus, bebemos o seu sangue divino, que coisa mais grandiosa!

3. Remédio para a tentação de voltar atrás: a confiança

Para concluir, voltemos à primeira leitura. Ela situa-nos na história do povo de Israel, precisamente na marcha pelo deserto. Uma atitude constante daquelas pessoas, como se nota, é a murmuração. Atrás dessa atitude se esconde a tentação da desconfiança de Deus e a busca de refúgio fora dele. A dúvida deles era: “está o Senhor em nosso meio ou não?” (Ex 17, 7). 

Eis um grande perigo que também nos ameaça: a tentação de voltar atrás, de abandonar a nossa fé católica, de viver a vida de antes – de pagãos, com diz o apóstolos -, uma vida de escravidão, longe de Deus e da sua graça.

O maná e as codornizes não eram apenas para satisfazer o estômago daqueles que murmuravam, mas era também para fazer crescer a confiança em Deus. Na Eucaristia Deus nos diz: vejam, eu prometi e cumpri, aqui eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos!

A orientação para que se recolhesse apenas o necessário para cada dia é o ponto alto dessa lição de confiança em Deus e do mal que faz em nós a ganância e a preocupação desmedida e angustiante a respeito do futuro. 

Este é o mesmo ensinamento da carta de Paulo: somos homens novos pelo batismo, mas sempre existe o perigo de querer voltar ao velho homem. Isso nos lembra que a decisão de levar uma vida nova deve ser renovada sempre, para não dizer diariamente

Com reverência, piedade e devoção, nos aproximemos deste Santo Altar, onde acontecerá um milagre muito maior do que alimentar cinco mil homens, onde seremos testemunha de um maravilhoso prodígio: o corpo e o sangue de Deus tocarão nossos lábios e se farão nosso alimento.

Maria, mulher eucarística, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha)

(1) Comentário ao Evangelho de São João, 25, 10.


TEXTOS PARA MEDITAÇÃO

I) Sobre a confiança

«Saibamos que Deus tem sempre os olhos perto de nós, mesmo quando parece que é noite» (João Paulo I, 10 de Setembro 1978)

“O Senhor cuida de ti, pode ficar tranquilo; te sustenta aquele que te fez: não cairás da mão do teu criador” (S. Agostinho, Comentários dos Salmos, 38, 18). 

II) Sobre a “saudade da escravidão”

O grande problema é a mentalidade de escravos, que continua na cabeça do povo, mesmo depois da libertação. A “saudade das cebolas do Egito” é uma tentação não só do povo de Israel no deserto, mas é também a nossa quando a vida cristã passa a ser desinteressante e se começa a ter saudades da vida longe de Deus.  

III) Sobre a preparação para receber a Eucaristia

Caríssimos, convido a um gesto muito concreto, após essa grande exortação sobre a Eucaristia que nos preparou o Senhor nesta Missa. Aproximemo-nos da Santíssima Comunhão, mas não como um gesto repetido, sem sentido e por mero costume, mas que o nosso coração se encha de amor pelo divino alimento que em poucos minutos nos alimentará. Àquele que comunga, diz Nosso Senhor: “tu te transformará em mim” (S. Agostinho, Confissões, 7, 18, 24). 

IV) Sobre o mistério eucarístico

Hoje, como aqueles homens, que diante do mistério proclamado ainda se sentem confusos e sem entender, assim também nós, que por mais que tenhamos estudado, ouvido e meditado sobre este sagrado mistério, nos sentimos distante de compreender toda a sua beleza e verdade, dizemos como eles: “Senhor, dá-nos sempre desse pão!”. Que nunca nos falte o único alimento que dá à nossa vida a promessa da imortalidade. 

V) Sobre a dignidade da Santa Missa

Por que esses cálices e âmbulas que imitam os materiais do que há de mais nobre no mundo? Por que as vestes cheias de beleza e de detalhes encantadores? Por que o cuidado com o Templo e com as suas mobílias, preparadas e conservadas com tanta reverência? Porque na Santíssima Eucaristia, e no milagre que opera a sua presença, a Santa Missa, “com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja” (Concílio Vaticano II, Presbyterorum Ordinis, n. 5). 

VI) O que a Eucaristia faz em nós

“Só mediante a Eucaristia é possível viver as virtudes heróicas do Cristianismo: a caridade, até ao perdão dos inimigos, ao amor por quem nos faz sofrer, ao dom da própria vida pelo próximo; a castidade, em qualquer idade e situação da vida; a paciência, especialmente na dor e quando se está perturbado pelo silêncio de Deus nos dramas da história ou da própria existência. Sede portanto sempre almas eucarísticas, para poderdes ser autênticos cristãos!” (São João Paulo II, Homilia, 19 de agosto de 1979). 

VII) Tudo deve ser visto na perspectiva da eternidade

“É claro que Jesus não elimina a preocupação normal, a procura do alimento quotidiano e de tudo o que pode tornar a vida humana mais desenvolvida, mais evoluída, mais satisfatória. Mas a vida passa fatalmente. Jesus explica que o verdadeiro significado da nossa existência está na eternidade, e que toda a história humana com os seus dramas e as suas alegrias deve ser vista em perspectiva eterna. (…) O homem necessita da transcendência! O homem necessita da presença de Deus na sua história quotidiana! Só assim pode encontrar o sentido da vida!” (São João Paulo II, Homilia, 5 de agosto de 1979).