22º Domingo do Tempo Comum

Assim como ao povo de Israel, no livro do Deuteronômio, o Senhor convida-nos a nos alegrar e agradecê-lo porque conhecemos a vontade divina e sabemos por onde caminhar. É a Palavra de Deus que nos revela esse caminho, temos um guia seguro que nos aponta o verdadeiro trajeto para a felicidade.

Por isso, irmãos, gratidão ao Senhor por estar em sua Igreja, por ouvir seus ensinamentos, por saber qual é a verdade que liberta e salva, por conhecer a pessoa que mudou as nossas vidas: Jesus Cristo

Podemos dizer que os textos das Sagradas Escrituras nos dão um sinal vermelho e um sinal verde, isto é, um sinal para parar e tomar cuidado e um outro indicando o que devemos fazer, meditemos sobre eles:

1. Sinal vermelho: viver de aparência

O problema para Jesus não está no rito em si (faz muito bem lavar as mãos antes das refeições!). Tanto é verdade que ele e sua família cumpriam os rituais judaicos e suas prescrições.

O problema está quando o que se faz fora não tem reflexo dentro. Vejam bem: o que incomoda Nosso Senhor é que enquanto se cumpre com todo o cuidado o dever de lavar as mãos, se esquece da purificação do coração e deixa-o numa tremenda imundice.  

Jesus nos ensina que as coisas mais importantes não acontecem fora, mas dentro de nós. E por isso mesmo chama-nos a tomar cuidado daquilo que se passa em nosso interior, em nosso coração, em nossos pensamentos. 

O que nos separa de Deus, como ouvimos no Evangelho, não são as coisas criadas por Ele, mas sim o pecado, que tem suas raízes no coração humano, que é símbolo do local da nossa decisão, onde escolhemos o bem ou o mal, onde decidimos o que fazer ou o que não fazer.

O que Jesus acusa nos fariseus pode acontecer conosco, quando a nossa relação com Deus se torna apenas de aparência. Isso acontece principalmente quando não levamos a sério a vida espiritual, ou seja, aquilo que se passa dentro de nós, entre nós e Deus. O perigo de preocupar-nos com tantas coisas que vão acontecendo fora e esquecer da única coisa que é necessária.  

Por isso, devemos preocupar-se com a nossa limpeza interior, que é alcançada em uma luta constante e alegre que conta sempre com a graça de Deus. E se alcança com o cotidiano exame de consciência e com a frequente confissão que nos lava de verdade, por dentro, e nos leva purificados à Eucaristia.

O Senhor também nos alerta do perigo que é o exagero da valorização das coisas externas, de uma vida superficial, que se manifesta não só no formalismo religioso, mas também numa vida familiar e social apenas “para outros verem”. 

2. Sinal verde: Vida e Palavra de Deus devem andar juntas

Há uma tentação que é constante a todos nós: o de querer separar o culto prestado a Deus do nosso estilo de vida, de separar os divinos ensinamentos que ouvimos daquilo que fazemos. Portanto a palavra-chave dos ensinamentos desta Santa Missa é coerência. E uma boa régua para medir a nossa coerência é observar em que distância está aquilo que aprendemos (ou que pregamos) daquilo que vivemos

Esse é o convite que se espalha nos textos bíblicos que ouvimos: afastar-se da hipocrisia (do teatro, das máscaras, da falsidade) e viver de forma coerente! De modo especial ouvimos isso na epístola de São Tiago e sobre esse assunto disse Santo Agostinho: “Perde o tempo pregando exteriormente a palavra de Deus quem não é ouvinte dela em seu interior” (Sermão 179, 1). 

Mas atenção! Não é porque não conseguimos viver este ou aquele mandamento do Senhor, que então podemos alterá-lo ou não ensiná-lo. Nós não temos o direito – como diz o Deuteronômio – de aumentar ou diminuir a lei do Senhor, muito menos modificá-la a nosso prazer, como fazem os juízes injustos que distorcem a lei a seu gosto. Os mandamentos, longe de serem um incômodo ou um empecilho para nossa alegria é, na verdade, uma indicação clara e precisa do caminho para ser feliz!

Por fim, façamos uma oração: Senhor, lava-nos por dentro e retire de nossos corações a tentação de dizer uma coisa e viver outra, de aprender o certo e fazer o errado. Reconhecemos que muitas vezes estamos com o coração longe de vós e deixamos que nele se cultive as amargas ervas do pecado. Ajuda-nos a nos aproximar da confissão, para sermos purificados espiritualmente, e dai a graça de sermos fiéis à Santa Missa, para assim acolher sempre vossa Palavra para colocá-la em prática. 

Maria, mãe da Verdade, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha)

TEXTOS PARA MEDITAÇÃO

Texto 01

“Assim encontramos agora a estrutura justa do processo de purificação e de pureza: não somos nós que criamos o que é bom — seria um simples moralismo — mas é a Verdade que vem ao nosso encontro. Ele mesmo é a Verdade, a Verdade em pessoa. A pureza é um acontecimento dialógico. Ela inicia com o facto de que Ele vem ao nosso encontro — Ele, que é a Verdade e o Amor — leva-nos pela mão, compenetra o nosso ser. Na medida em que nos deixamos tocar por Ele, em que o encontro se torna amizade e amor, tornamo-nos nós mesmos, a partir da sua pureza, pessoas puras e depois pessoas que amam com o seu amor, pessoas que introduzem também outros na sua pureza e no seu amor”. (Bento XVI, Homilia, 30 de agosto de 2009). 

Texto 02

“Mas hoje podemos tirar desta página do Evangelho um ensino de ordem não só individual, mas também social e coletiva. A distorção que Jesus denunciou de dar mais importância à limpeza externa do que à pureza do coração se reproduz hoje em escala mundial. Há muita preocupação com a poluição externa e física da atmosfera, da água, com o buraco no ozônio; por outro lado, silêncio quase absoluto sobre a contaminação interna e moral. Ficamos indignados ao ver imagens de aves marinhas emergindo de águas poluídas por manchas de óleo, cobertas de alcatrão e incapazes de voar, mas não fazemos o mesmo por nossos filhos, precocemente viciados e embotados pelo manto da malícia que já se espalha por todos aspecto da vida”. (Cardeal Raniero Cantalamessa, ofmcap, XXII Domingo del tiempo ordinario, ciclo b: Lo que contamina al hombre). 

Texto 03

A Verdade purifica! Por isso que no discurso sobre a videira Jesus disse: “vocês já estão limpos graças à Palavra que vos anunciei” (Jo 15, 3), e um pouco mais adiante, na oração sacerdotal, ele completa: vocês são santificados na verdade! (cf. Jo 17,17-19). 

Texto 04

Há um erro que se difunde com uma assustadora potência, a falsa ideia de que somos muito bons. Isso se ouve principalmente naqueles que dizem: ” – vou confessar o que ao padre? Não mato, não roubo, sou um santo!” E por isso mesmo pensam que Jesus, a sua palavra, a Eucaristia, a confissão, são dispensáveis ou são para aqueles que ainda não alcançaram a “pureza” que julgam ter. Livra-nos, Senhor, de tal arrogância e presunção!

Texto 05

Quem cobiça as coisas alheias é triste, por isso o Mandamento nos chama a viver não com os olhos postos no que é dos outros, mas perceber a alegria que é ter aquilo que já temos, na certeza de que Deus também nos dará aquilo de que necessitamos. Quando o mandamento do Senhor nos proíbe de mentir, não é porque nos quer tirar a aparente “felicidade” que é enganar alguém, mas nos adverte que o mentiroso é triste e se afundará cada vez mais no seu engano. E isso vale para tudo o que o Senhor nos ensina, seja sobre a pureza, como também sobre a justiça, a caridade, etc.