23º Domingo do Tempo Comum

Convido-vos a meditar neste domingo, no dia do Senhor Ressuscitado, sobre duas palavras de ordem que ouvimos a pouco na primeira leitura e no Evangelho: 

1. “Criai ânimo, não tenhais medo!”

Escutemos o que nos diz Isaías, logo no início da leitura de hoje. O autor, que escreveu para consolar o povo de Israel (que estava longe de casa e triste) não sabia – mas Deus sim – que suas palavras teriam sentido também para nós hoje, que aqui nos encontramos para a Santa Missa.

É também a nós que o profeta dirige essas palavras. Quando tudo parece perdido e tudo leva a pensa que Deus nos abandonou, escutamos esse convite para o ânimo e a coragem. Quantas vezes Nosso Senhor repete isso a nós, particularmente nos evangelhos. Sem dúvida nós precisamos ouvir essas palavras!

É claro que esse convite se dirige a todos, mas é especialmente endereçado aos que se encontram frustrados ou que perderam as suas esperanças. Seja na vida familiar, no trabalho ou nos afazeres do dia a dia, todos podemos nos cansar. 

Mas esta não é hora de cruzar os braços e pensar que tudo está perdido. É momento de ouvir essas profecias consoladoras, que nos enchem de esperança e nos dão forças para continuar: o deserto será transformado em terra fértil, não faltará água, nem comida, estaremos seguros, alimentados e curados. 

E não pensem, irmãos, que essa promessa de Isaías é uma falsa propaganda ou algo distante de nós. Ela aconteceu em Jesus Cristo. É em Cristo que tudo renasce, que tudo se transforma, que tudo ganha sentido e alegria. Não nos esqueçamos: Ele é a nossa única segurança, por que vou ter medo? Por que vou desanimar?

2. “Éfata! Abre-te”

Escutemos agora as próprias palavras de Nosso Senhor. São Marcos fez questão de registrar alguns detalhes, que para um observador não atento poderia passar despercebido: o modo com Jesus fez a cura e a palavra que Ele usou para realizá-la.

Disse o Cardeal Raniero: “Os milagres de Cristo nunca são um fim em si mesmos; eles são ‘sinais’. O que Jesus fez um dia por uma pessoa no plano físico indica o que Ele deseja fazer a cada dia por cada pessoa no plano espiritual”. (1)

Falemos sobre o modo em que Jesus fez a cura. Tocar é sinal de transmissão de poder; a saliva é símbolo da força e da vida, é a mistura da água com o sopro. Este último nos lembra o sopro de Deus nas narinas de Adão. Isso nos ensina que é em Cristo que somos criados de novo. 

Falemos sobre a palavra que Ele usa. São Marcos guardou essa palavra, em aramaico mesmo – disse o Papa Bento XVI – para nos ensinar que a mesma ação de cura acontece aqui e agora, em nós que escutamos essa palavra salvadora (2). O “Éfata”, dito àquele homem, tem o mesmo poder em nós: abre os ouvidos para escutar o Senhor e cura de nossa mudez.

O toque de Jesus, irmãos, continua hoje através dos sacramentos da Igreja. É Ele mesmo quem nos toca no batismo, na crisma, na unção dos enfermos, na hora da confissão, na ordenação ou no matrimônio e, mais ainda, na Santíssima Eucaristia. 

Nos Sacramento há sempre matéria (o material que se usa no batismo, por exemplo, é a água) e forma (que são as palavras, como por exemplo: “Eu te batizo…”). Da mesmo forma aquele milagre (que também conteve matéria e forma) continua sendo operado, mas agora de maneira muito mais sublime e com efeitos sobrenaturais.

Quantas vezes a mão do Senhor se estende em nossa direção para nos comunicar as graças incontáveis de sua misericórdia. É principalmente através dos Sacramentos que somos tocados fisicamente para sermos curados espiritualmente

É bom lembrar-nos hoje de um dos ritos complementares do batismo, quando o sacerdote, imitando o que fez Jesus com aquele homem, toca os lábios e os ouvidos da criança e repete o que disse Nosso Senhor. 

Como é bom saber disso: Jesus é Deus mesmo que vem ao encontro dos homens e realiza as promessas que ouvimos na primeira leitura. É Ele mesmo que nos dá a graça de ouvir e de falar. Que não nos falte a capacidade para falar com Deus e falar ao outros sobre Deus.

Para concluir, convido-vos a notar um detalhe. Após o milagre, as pessoas dizem: “Ele tem feito bem todas as coisas”. Essa frase nos faz lembrar de uma outra, do início da Bíblia, dita por Deus logo após à criação quando “viu que [sua obra] era muito bom” (Gn 1, 31). O evangelista nos ajuda a perceber que Jesus opera em nós uma nova criação. Somos nós os homens e as mulheres novos, que nasceram para a vida verdadeira, para o Céu!

Maria, mãe da obediência, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha) 

1) Frei Raniero Cantalamessa, ofmcap, XXIII Domingo del tiempo ordinario, Ciclo B. Effatá. ¡Ábrete!. (2) Homilia, 10 de setembro de 2006. 


TEXTOS PARA A MEDITAÇÃO

Seguem dois outros conselhos que se recolhe dos textos bíblicos deste domingo:

1º: Não fazer distinção de pessoas

No último domingo falávamos da coerência. É sobre esse tema que continuamos a ouvir na epístola de São Tiago. Não podemos tratar com diferença as pessoas. Geralmente, como nos lembrou o “irmão do Senhor”, a tendência é tratar com mais carinho e paciência os ricos ou aqueles que em alguma coisa podem nos favorecer ou podem nos dar alguma coisa, e ter um trato de desdém e de indiferença com que não nos pode oferecer nada. Na Igreja e na sociedade ninguém pode ser tratado com desprezo. 

É importante lembrar que os “pobres deste mundo” na linguagem bíblica é muito mais do que apenas uma condição de ausência de bens, mas é o nome que se dá àqueles que se colocam inteiramente nas mãos de Deus e só nele depositam as suas esperanças. É a pobreza evangélica, da simplicidade, da humildade, do despojamento, que se opõem ao orgulho e à soberba, que não se mede pelo saldo bancário.

2º Não ficar “mudo” 

Não podemos nos calar, ainda mais quando o nosso dever nos obriga a ensinar a verdade. Eis alguns exemplos: um pai e uma mãe não podem ficar mudos diante dos filhos, quando deveriam ensinar-lhes a fé católica; um cristão não podemos ficar em silêncio quando numa conversa entre amigos a Igreja, nossa mãe, é atacada com mentiras; etc.

Quantas vezes teremos que dar voz à voz de Jesus aos corações que as desconhecem: na visita a um amigo enfermo, num velório em que encontramos os que não tem esperança, e em tantas outras ocasiões; certamente não nos faltará ocasião para falar da beleza de Cristo e da sua esposa, a Igreja.

E vos alerto! Aos poucos, a mensagem de Jesus está sendo criminalizada. É praticamente crime falar contra o assassinato de crianças no ventre das suas mães, contra os modelos mais absurdos de “família” que se propõem, contra a institucionalização do erro e a propaganda do pecado. Que não nos falte firmeza, e uma boa dose de docilidade, para anunciar, nestes tempos difíceis, a Verdade de Jesus que é sempre nova e atual.