30º Domingo do Tempo Comum

O Evangelho começa com uma informação interessante, a de que o Senhor havia feito calar os saduceus. E poderíamos começar nossa reflexão por aqui: perante Jesus todos se emudecem. Diante da Verdade, o mundo deve se silenciar, para ouvir a sua voz, pois Ele é a Palavra do Pai. 

Embora a pergunta feita nesta Evangelho tenha sido apresentada por uma pessoa mal intencionada, pois o evangelista nos diz que foi feita para “experimentá-lo”, Nosso Senhor aproveita desta ocasião para a nossa formação.

A questão levantada tem muito sentido porque de fato eram muitas as prescrições que os judeus observavam. Era preciso saber qual era a mais importante. É como quando estamos diante de uma prova e professor nos indica quais são os assuntos principais, faz um resumo e aponta o que é essencial. 

Com a sua resposta o Senhor sintetiza todos os dez mandamentos. De fato no preceito de “amar a Deus” estão todos os mandamentos da primeira tábua (1º ao 3º mandamento) e no de “amar o próximo” a segunda tábua (4º ao 10º). Por tanto, Jesus não anula o decálogo, mas o sintetiza e ensina o seu sentido pleno. Consideremos, pois, o resumo que nos foi dado pelo Divino Mestre:

1. O maior mandamento: Amar a Deus

A primeira parte da resposta de Jesus é a recitação do “Shemá”, uma oração que os judeus rezam várias vezes durante o dia, e que portanto Jesus sabia decor. Nela o judeu se lembra que Deus é o único Senhor e só a Ele se deve amar. Com o coração, com a alma e com o entendimento, ou seja, o homem, por inteiro, deve amar ao Senhor

Deus deve ser amado sobre todas as coisas inclusive sobre o amor a nós mesmo. O amor ao Deus deve estar acima de todos os outros amores. E esse amor deve invadir todos os espaços da vida do cristão de modo que não exista parte de sua vida em que ele não ame a Deus. 

Essa é a finalidade de nossa existência. Foi por isso que nascemos. Nisso se resume nossa vida: amar o nosso Criador. E os motivos para amá-lo são tantos! Primeiro porque Ele assim o quer, segundo porque Ele é digno do nosso amor, e por fim, porque Ele nos ama desde toda a eternidade. 

Amamos a Deus principalmente quando não o ofendemos pelo pecado e quando  cultivamos a amizade com Ele através da oração. Aqui também são oportunas as perguntas do exame de consciência a respeito do primeiro mandamento, cito apenas algumas das perguntas que nos são propostas no exame:

“Neguei ou abandonei a minha fé? Tenho a preocupação de estudar a fé católica para conhecê-la e defendê-la? Recusei-me a defender a minha fé ou fiquei envergonhado dela? Disse o nome de Deus em vão? Pratiquei outras religiões ou confissões religiosas? Coloquei a minha confiança em adivinhos, horóscopos ou em alguma superstição? Manifestei falta de respeito pelas pessoas, lugares ou coisas santas? Faltei voluntariamente à Missa nos domingos ou dias de preceito?”

Hoje vemos crescer assustadoramente o contrário desse mandamento: o ódio a Deus. E geralmente quando os homens “tiram” Deus de suas vidas ou tentam eliminá-lo da sociedade, fazem isso para colocar-se no lugar Dele. O egoísmo cede lugar à idolatria. É uma das espécies de “falsos deuses” de hoje, que se deve abandonar, como diz S. Paulo na epístola. 

“Morte ao nazareno” escreveram os bandidos que incendiaram uma Igreja no Chile na última semana. Como são atuais as palavras de S. Agostinho: “A cidade do demônio começa com o egoísmo e terminar com o ódio a Deus”

De nada nos serve cumprir todos os outros mandamentos, se esquecermos deste, porque deste primeiro depende todos os outros. Não é possível amar ao próximo de verdade sem este primeiro preceito. Quem não ama a Deus, não amará nem a si mesmo nem ao próximo!

2. O segundo: amar ao próximo 

Aparentemente não havia nada de original nas palavras de Jesus ao acrescentar o segundo mandamento. Os fariseus já  conheciam o dever de amar ao próximo, pois já estava presente no Antigo Testamento (Cf. Lv 19, 18). Todavia passava quase sempre despercebido. Mas então qual é a novidade de Jesus? É que o Senhor vai além, e mostrar a estreita relação que existe entre o amor a Deus e o amor ao próximo. 

Com esse complemento o Senhor nos ensina que o primeiro mandamento deve ser traduzido em obras. E esse dever é apresentado na primeira leitura de forma muito concreta, deixando claro que Deus que se coloca como defensor dos indefesos e neles Ele espera o nosso amor. 

Por que Jesus diz que este segundo mandamento é semelhante ao primeiro? Porque ao amar o próximo, que é imagem de Deus, estamos amando o próprio Deus. Portanto qual é o motivo para amar o próximo? O amor a Deus!

E aqui poderíamos recordar os próprios mandamentos da “segunda tábua” como uma lista de coisas concretas para nós fazermos de amor o próximo, pois como disse S. Paulo: “os preceitos: não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e ainda outros mandamentos que existam, eles se resumem nestas palavras: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Rm 13, 9).

Santidade sem caridade não existe, por isso Deus quer atos, ainda que pequenos, de amor, todos os dias. Um ato de paciência e bondade com alguém, o trato respeitoso com quem não nos agrada, um serviço que não gostamos de fazer em benefício dos outros feito com amor, tudo isso tem um grande valor diante de Deus. “Onde não há amor, disse S. João da Cruz, semeie amor e colherás amor”.

Para concluir, é útil lembrar-se destas palavras de São Paulo: “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acabará” (1Cor 13, 4-8).

Maria, mãe do divino amor, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha)


TEXTOS PARA MEDITAÇÃO 

O QUE SIGNIFICA AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO?

Isto que diz, que se deve amar o próximo “como a ti mesmo”, não deve entender-se “na mesma medida que a ti mesmo” ou “com um amor tão grande como a ti mesmo” o “quanto te amas a ti mesmo”, porque isto estaria contra a ordem da caridade. Ao dizer “como a ti mesmo” o que quer dizer é que ames o próximo pelo mesmo fim pelo qual te amas a ti mesmo, o também, do mesmo modo que te amas a ti mesmo. Pelo mesmo fim, porque não deves amar-te a ti mesmo por ti mesmo, senão por Deus, da mesma maneira, deves amar ao próximo por Deus. Diz o apóstolo: “Fazendo tudo para a glória de Deus” (1Cor 10, 31). Além disso, te amas quando busca para ti um bem; o bem melhor é o bem de ser justo. Portanto, deves amar o próximo pela justiça, quer dizer, seja porque é justo, seja para tornar-se justo”. (São Tomás de Aquino, Super Evangelium S. Matthaei lectura, caput 22, lectio 4). 

OS MANDAMENTOS E A LEI NATURAL 

Os Dez Mandamentos fazem parte da revelação de Deus. Mas, ao mesmo tempo, ensinam-nos a verdadeira humanidade do homem. Põem em relevo os deveres essenciais e, por conseguinte, indirectamente, os direitos fundamentais inerentes à natureza da pessoa humana. O Decálogo encerra uma expressão privilegiada da «lei natural»: No princípio, Deus admoestou os homens com os preceitos da lei natural, que tinha enraizado nos seus corações, isto é, pelo Decálogo. Se alguém não os cumprisse, não se salvaria. E Deus não exigiu mais nada aos homens» (Santo Ireneu de Lião). (Catecismo da Igreja Católica, n. 2070).

Embora acessíveis à simples razão, os preceitos do Decálogo foram revelados. Para atingir um conhecimento completo e certo das exigências da lei natural, a humanidade pecadora precisava desta revelação: «Uma explicação completa dos mandamentos do Decálogo tornou-se necessária no estado de pecado, por causa do obscurecimento da lei da razão e do desvio da vontade» (São Boaventura) (Catecismo da Igreja Católica, n. 2071)