33º Domingo do Tempo Comum

Neste penúltimo domingo do ano litúrgico a Igreja convida-nos, mais uma vez, a olhar para a meta de nossa peregrinação para que, cheios de esperança, não desanimemos na caminhada. O convite a vigilância que o Senhor nos faz nunca é demais. É sempre necessário ouvir uma e outras vezes a advertência de ser precavido. 

É importante recordar também o que disse S. João Paulo II: “O cristão não é aquele que perde tempo discutindo sobre o dia e a hora da vinda do Senhor, mas sim é aquele que, instruído pela palavra de Jesus, vive em comunhão com Ele, vigiando constantemente. Esta espera, para ser autêntica, deve ser operante. (Homilia, 15 nov. 1981). 

Foi pensando nisso, para que a nossa espera seja autêntica e operante, que a Igreja faz-nos hoje ouvir a conhecida parábola dos talentos. Através da qual nos convida a sermos vigilantes, mas ao mesmo tempo a não cruzar os braços na espera da vinda do Senhor, por isso impele-nos a sermos criativos no uso dos talentos que o Senhor nos confiou

A parábola é clara: os servos somos nós; o tempo da viagem do patrão é a nossa vida, é também a vida do mundo desde a ascensão de Jesus até à segunda vinda; e a volta do patrão e a prestação de contas é imagem do juízo particular e final. Por isso, “participar da alegria do patrão” é o Céu e “ser jogado na escuridão” é o inferno.  

Mas, convido-vos a mergulhar nesta parábola para aproveitar de suas outras riquezas. Um detalhe a se observar é que esta moeda chamada  “talento” não valia pouca coisa. Um talento de ouro equivale a aproximadamente 60 mil reais! É muito dinheiro! O que significam esses talentos? São várias as explicações. Esses talentos podem ser os dons naturais como também sobrenaturais. Sobre eles falaremos:

1. Os “talentos” naturais

É muito comum usarmos a palavra “talento” para nos referirmos às qualidades e habilidades de uma pessoa. E sem dúvida esse é um dos sentidos que podemos aplicar à parábola: os talentos são os dons que Deus nos deu, como a inteligência, os dons artísticos e técnicos, as aptidões profissionais, como também os bens temporais e tantas outras coisas que Ele confiou a cada um. 

Passamos a vida administrando os bens que nos foram confiados, e o critério para “entrar na alegria do Senhor” é o modo como utilizamos e multiplicamos esses recursos. Eis aqui uma coisa importante de se ouvir hoje: não somos donos, mas administradores dos dons que temos, os dons são de Deus! Portanto tudo que fizermos deve ser para a glória de Deus

Vale a pena perguntar-se: o que tenho feito dos dons dons recebidos? Como tenho feito render os dons de Deus colocados sob a minha administração? E mais: como tenho utilizado o tempo, um outro importante dom de Deus, colocado em nossas mãos? Por isso, devemos tomar cuidado com a ociosidade. Lembre-se que o terceiro empregado, aquele enterrou o talento, foi chamado de “mal e preguiçoso“. 

2. Os “talentos” sobrenaturais

É claro que essas talentos não significam apenas os dons pessoais. Eles possuem um outro sentido muito mais profundo e muito mais importante. Eles são os dons que Deus nos concede em nossa vida espiritual. Para entender melhor eis as palavras do Papa Bento XVI:

“(…) tais dons, além das qualidades naturais, representam as riquezas que o Senhor Jesus nos deixou em herança, para que as fecundemos: a sua Palavra, depositada no Santo Evangelho; o Batismo, que nos renova no Espírito Santo; a oração do “Pai-Nosso” que elevamos a Deus como filhos unidos no Filho; o seu perdão, que Ele ordenou de levar a todos; o sacramento do seu Corpo imolado e do seu Sangue derramado. Em síntese: o Reino de Deus, que é Ele mesmo, presente e vivo no meio de nós”. (Ângelus, 16 nov. 2008).

Quantos são aqueles enterram o dom que é o seu Batismo, a sua primeira Eucaristia, a sua Crisma! Por isso o último servo simboliza também o homem que desconfia de Deus. Cheio de medo, de egoísmo, de tantas desculpas e justificativas, que está sempre pronto em culpar os outros, inclusive a Deus.

Quem nunca ouviu uma pessoa dizer que não vai à Missa porque lá ele vai encontrar pessoas ruins? Essa pessoa faz como o empregado preguiçoso da parábola, encontra uma desculpa e joga a culpa nos outros para não multiplicar os dons do Senhor.

A verdade é bem essa: aquele servo não amava seu senhor! Quando não se ama, enterramos os dons. Irmãos, não imitemos este servo mal. Para isso devemos superar o medo, a preguiça e a comodidade. Deixar de lado a tentação e a covardia de esconder os dons que temos em nossas mãos

“Sê fiel até à morte, diz o Senhor, e te darei a coroa da vida eterna” (Ap 2, 10). Por fim, é bom repetir: vale a pena ser fiel na administração desses bens – sejam os temporais, mas principalmente os espirituais – para que quando o Senhor voltar, abrindo nossas mãos, os dons que dele recebemos estejam multiplicados e possamos dizer: “tudo que fizemos nesta vida, Senhor, foi para a Vossa glória!”

3. O elogio às mulheres 

Antes de concluir não poderíamos deixar passar despercebida a imagem feminina apresentada nas leituras. A mulher é exaltada pelo seu papel insubstituível na família. A tríplice função da mulher: esposa, senhora da família e mãe sinalizam os lugares que ninguém, a não ser uma mulher, pode ocupar. 

Diferente do que dizem as ideologias nefastas que querem destruir a religião, a família e a sociedade, as funções da mulher num lar não é uma humilhação, mas ao contrário: é o elogio dos dons que Deus deu só a elas e que ninguém poderá substituir

Quem é essa mulher elogiada nas leituras? É antes de todas a Virgem Maria, aquela que trabalha incansavelmente, como uma boa mãe, para que nós, seus filhos, multipliquemos os dons que recebemos para apresentá-los ao Senhor. 

Maria, mãe amável, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha) 


TEXTOS PARA MEDITAÇÃO

OS TALENTOS SEGUNDO O CATECISMO

“Ao vir ao mundo, o homem não dispõe de tudo o que é necessário para o desenvolvimento da sua vida corporal e espiritual. Precisa dos outros. Há diferenças relacionadas com a idade, as capacidades físicas, as aptidões intelectuais e morais, os intercâmbios de que cada um pôde beneficiar, a distribuição das riquezas (Gaudium et spes, 29). Os «talentos» não são distribuídos por igual.

Estas diferenças fazem parte do plano de Deus que quer que cada um receba de outrem aquilo de que precisa e que os que dispõem de «talentos» particulares comuniquem os seus benefícios aos que deles precisam. As diferenças estimulam e muitas vezes obrigam as pessoas à magnanimidade, à benevolência e à partilha: e incitam as culturas a enriquecerem-se umas às outras:

«Eu distribuo as virtudes tão diferentemente, que não dou tudo a todos, mas a uns uma e a outros outra […] A um darei principalmente a caridade, a outro a justiça, a este a humildade, àquele uma fé viva. […] E assim dei muitos dons e graças de virtudes, espirituais e temporais, com tal diversidade, que não comuniquei tudo a uma só pessoa, a fim de que vós fosseis forçados a usar de caridade uns para com os outros; […] Eu quis que um tivesse necessidade do outro e todos fossem meus ministros na distribuição das graças e dons de Mim recebidos» (Santa Catarina de Sena)”. (Catecismo da Igreja Católica, n. 1936-1937). 

MAS, E SE EU TENHO POUCOS TALENTOS?

Que ninguém, pois, diga: “Tenho apenas um talento e nada posso fazer.” Não. Com apenas um talento, você também pode ser glorioso. Porque não serás mais pobre que a viúva das duas moedas, nem mais rude que Pedro e João, que eram ignorantes e não conheciam as letras. No entanto, por terem mostrado seu fervor e por terem feito tudo pelo interesse comum, chegaram ao Céu. (São João Crisóstomo, Homilia 78, 3). 

O VERDADEIRO TEMOR DE DEUS 

O final da parábola possui remuneração e castigo, assim como será no final dos tempos. Lembra-nos S. Paulo, mais uma vez, sobre a vigilância e a espera pelo dia do Senhor, o dia em que o dono dos talentos que temos nas mãos voltará e nos pedirá contas deles. 

Esse tema não deve gerar em nós medo, mas o santo temor. Diferente do falso temor de Deus, o santo temor é um Dom do Espírito Santo, que nos é muito necessário. Trata-se do temor de ofender a Deus, de entristecê-lo, de não fazer a sua vontade; assim como temos medo de ofender a quem muito nos ama. Já o falso temor é aquele se baseia na desconfiança de Deus.