3º Domingo do Tempo Comum

Ouvimos no Evangelho deste dia a primeira pregação de Jesus e o chamado apostólico. As palavras que ouvimos são a verdadeira boa notícia! A notícia que não passará no jornal da noite e que nem será publicada em uma postagem da internet. A única boa notícia só se ouve aqui, na Igreja, e que se ouve da boca de Jesus: “o reino já chegou!” 

Jesus passa hoje, como passou na beira daquele lago, e não encontra Pedro ou André, mas Ele nos encontra! Portanto, hoje é o tempo da graça, o kairós, de nossa história: por quê? Porque o Senhor passa! Este é o significado das palavras de Jesus: “o tempo já se completou” (Mc 1, 15).

E na liberdade nos escolhe, para que em nossa liberdade o escolhamos! Hoje ele também toca nossos corações, como tocou os daqueles homens. Somos “pescados” por suas palavras e atraídos à Ele nas redes do amor divino, onde encontramos a felicidade verdadeira que dura para sempre. Encontramos a alegria de nossa vida para o qual fomos criados e sem o qual nossa vida não tem sentido. 

No início da vida cristã não está uma lição sobre o que fazer, mas sobre a graça, a gratuidade, daquele que nos quer salvar. Mas, sabendo disso, devemos nos perguntar: o que fazer ouvindo essa boa notícia? São duas atitudes que Cristo nos convida: converter e crer

a) Converter 

Converter não é só não pecar. Trata-se de direcionar toda a nossa vida para o único que pode nos dar a felicidade; é lembrar-se que nossa vida não é apenas temporal, mas é eterna, e que a eternidade está sempre próxima. 

Converter não é algo negativo ou ruim, como muitos fazem pensar que seja. Mas é um ato positivo: é ato de confiança. Isso só é possível colocando-se entre aqueles que seguem Jesus (a Igreja) e aprendendo com Ele por onde temos que caminhar. 

Converter é ter em nós “os mesmos sentimentos de Cristo (Fl 2, 5): pobre, casto e obediente. Ele, com sua vida, ensina-nos o jeito certo de se viver.

Converter é pedir como fez o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, vossa verdade me oriente e me conduza!” (Sl 24, 4-5). Assim Deus faz conosco, em cada domingo, em cada dia, mostra-nos o caminho para que a nossa vida se ordene para o seu único fim: a vida feliz junto de Deus. 

Por isso, a verdadeira conversão é aquela que se materializa em arrependimento, na busca do perdão (confissão), na fidelidade ao Evangelho. Deus deseja a nossa conversão, como desejou a conversão da cidade de Nínive, lembrada na primeira leitura.

Converter é deixar. Quantas coisas ruins que carregamos, e que devemos abandonar. Elas são representadas no evangelho pelas “redes”. Sim, temos muito o que deixar, mas o que se ganha é infinitamente maior

“A figura deste mundo passa” (1Cor 7, 31). O “como se não” de Paulo é um convite a não absolutizar nada em nossas vidas, senão Cristo. A Palavra de Deus também convida-nos, dentro de nosso estado de vida, a examinar-nos quanto: à generosidade, sobriedade, gastos desnecessários, cuidado com os bens que estão à nossa disposição.

b) Crer

Conversão e fé (crer) vão juntas. Pela fé entramos na vida cristã. Aqui podemos incluir uma lógica bem simples: se é verdade que “nada é impossível para aqueles que crêem” (cf. Mc 9, 23), logo, se tivermos fé, Deus também poderá fazer em nós as mudanças que precisamos.  

O ato de crer não é um ato pontual, apenas. “Convertido uma vez, pra sempre convertido” dizem alguns. Mas pensar assim pode levar a um grande perigo: o da presunção. Por isso, irmãos, a conversão deve ser renovada sempre, a cada oração de confiança pela manhã e a cada exame de consciência no final do dia.  

Que nos ajude a Virgem Maria!

(Pe. Anderson Santana Cunha)

TEXTOS PARA MEDITAÇÃO

O VERDADEIRO DESAPEGO

Para seguir Jesus é preciso ser livre. O apego às coisas, às pessoas, faz com que neles concentremos a nossa segurança. E não há nada mais verdadeiro do que isso: podemos perdê-los.  Por isso São Paulo nos adverte a reconhecer como as coisas deste mundo são passageiras

É difícil dar esse passo, como foi para aquele jovem rico que foi embora, triste, porque tinha seu coração sequestrado pelos seu bens (cf. Mc 10, 21). Era prisioneiro de suas moedas

Compreendamos bem: não se trata de um desprezo, mas de um desprendimento! Em outras palavras: o primeiro lugar é de Deus, as demais coisas, que também são necessárias, virão depois. 

Convêm lembrar que esse desapego não deve se traduzir em uma vida desleixada. Jesus não andava vestido de qualquer forma, sua túnica era sem costura (cf. Jo 19, 32) e seu manto tinha uma orla (Cf. Mt 9, 20; 14, 36). Além disso, não se pode pensar na casa de Nazaré senão como uma casa modesta e simples, mas limpa e ordenada. 

O descuido e o desmazelo não são desapego. O verdadeiro desprendimento acontece quando, usando os bens materiais, entendemos que eles não são o fim. Quem vive assim não será indiferente às necessidades dos outros – seja com suas doações ou com as obras de caridade.

“Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado. Procurem, por isso, ordenar retamente os próprios afetos, para não serem impedidos de avançar na perfeição da caridade pelo uso das coisas terrenas e pelo apego às riquezas, em oposição ao espírito da pobreza evangélica, segundo o conselho do Apóstolo: os que usam no mundo, façam-no como se dele não usassem, pois é transitório o cenário deste mundo (1 Cor. 7,31 gr.)” (Lumen Gentium, n. 42)