4º Domingo do Advento

São os pais de Jesus, a Virgem Maria e São José, que nos conduzirão nesta última reflexão dominical deste retiro que é o tempo do advento.

Jesus, como toda criança, foi concebido no seio de sua mãe e durante nove meses foi gestado em seu útero materno. Aqueles nove meses foram de fato um primeiro advento, vivido por Maria e José, e que a Igreja permite também a nós vivenciar nestes dias

E quantas coisas, meus irmãos, aquele primeiro advento têm a nos ensinar! Por isso, gostaria de nesta meditação conduzir vosso olhar a duas personagens muito especiais do mistério da Encarnação: a Santíssima Virgem Maria e seu castíssimo esposo São José. 

a) Maria

Maria, a mãe da fé, que gera a verdadeira alegria 

Se queremos neste Natal acolher de verdade Nosso Senhor, não há melhor atitude do que a de imitar a Virgem Maria. Ela não só nos ensina a escutar a voz de Deus, mas também nos mostra como cumpri-la fielmente. E essas duas atitudes: dizer “sim” e fazer a vontade de Deus está toda baseada na sua grande confiança no Senhor. 

Maria, com palavras simples e sem hesitação, fez o seu precioso ato de fé. É como se Maria dissesse: “Senhor, minha história está em suas mãos, faça de mim o que quiseres!” Aquele momento, sem dúvida, foi o momento mais feliz da vida de Maria, tanto que logo após ela cantou um dos mais belos hinos que conhecemos, exaltando as maravilhas que Deus fez nela em favor de toda a humanidade. 

Aquele canto, o Magnificat, nos mostra que a fé nos faz felizes e, como dizíamos no domingo passado (o domingo da alegria) isso acontece porque nós temos o único e verdadeiro motivo para a felicidade: Jesus Cristo. Somente fazendo o que Deus quer encontramos a alegria!

Mesmo nos momentos difíceis, que foram muitos na vida de Nossa Senhora, desde a fuga para o Egito até aos pés da cruz, nunca faltou a fé no coração daquela mãe

O nosso “amém” diante da Eucaristia

Na verdade a Virgem não teria utilizado exatamente a palavra “fiat”, como está na bíblia em latim, nem mesmo usou a palavra equivalente que está nos textos originais gregos. Provavelmente a palavra que Maria disse foi “amém”, pois essa era a palavra que os hebreus usavam para confirmar a aceitação da vontade de Deus.

Como não nos recordar agora daquele “amém” que nós dizemos na missa no momento da comunhão? Somos nós que hoje, por nossa vez, diremos “sim” aos planos de Deus. Desta forma o Filho de Deus entra em nossa vida, passa a morar dentro de nós, como que um prolongamento (guardada as devidas proporções) do profundíssimo mistério da encarnação de Nosso Senhor. 

Nós também de certa forma “concebemos” Jesus quando ele passa a dar forma às nossas vidas, quando as realidades de nossa existência passam a ser “cristificadas”. 

E isso pode ser observado quando acontecem mudanças concretas em nossos costumes, no dia a dia, como por exemplo: quando se elimina os “palavrões”, quando se deixa de praticar coisas más, quando se renuncia ao rancor, quando se esforça para ser mais paciente. Quantos frutos dá a Eucaristia em nossas vidas, não só nesta, mas especialmente na verdadeira vida: nos dá a vida eterna!

O Cristo que encontrou morada no ventre de Maria vem também a nós, vem aos nossos corações pela sua Divina Palavra e vem de modo especial na Santíssima Eucaristia, que é o seu Corpo, o mesmo nascido de Maria. O mesmo Corpo Divino que os pastores e os magos veneraram em Belém logo mais estará sobre o altar desta Igreja e será nosso alimento

b) José 

Junto à Virgem Maria está o seu casto esposo, São José, que neste último domingo do Advento não pode passar despercebido [De modo especial neste ano que o Santo Padre o Papa Francisco quis consagrar como o “Ano de São José” para comemorar os 150 anos da declaração de São José como padroeiro da Igreja pelo Papa Pio IX].

José, era da casa de Davi, ou seja, descendente de Davi. Este é um sinal importante para os evangelistas. Com este detalhe Deus cumpriu a promessa que havia feito nas antigas escrituras segundo a qual o Messias deveria ser “filho de Davi”, como ouvimos na primeira leitura. 

Mas o pai “adotivo” de Jesus não é apenas uma figura para dar pleno cumprimento à promessa. José, como diz o evangelho, era um “homem justo” (Mt 1, 19). E sua escolha não foi de forma alguma aleatória. Deus escolheu um pai que fosse digno de ser pai terreno de seu Filho, seu único Filho Eterno. 

Muito se teria a aprender sobre São José. O Papa João Paulo II na exortação que escreveu sobre o guardião da casa de Jesus, dos vários elogios que faz ao carpinteiro de Nazaré, um deles merece destaque: o seu silêncio

Não encontramos palavras alguma na boca deste homem nos textos das Escrituras. Isso porque a vida de José nos indica o primado da vida interior, ou seja, de que a oração, as nossas conversas com Deus, vem sempre em primeiro lugar (1) e que para rezar bem é preciso silêncio.

Como nos faz bem, mais uma vez recordar, a importância do silêncio. O silêncio que nos permite ouvir a Deus e cumprir seus planos, o silêncio que nos ajuda a enfrentar as contrariedades e as dificuldades que aparecem em nossa vida. É o silêncio, que brota da fé, que torna o nosso coração confiante na divina providência. 

Disse o Papa Bento XVI, Deixemo-nos ‘contagiar’ pelo silêncio de São José. Nos é muito necessário, em um mundo tão barulhento, que não favorece o recolhimento e a escuta da voz de Deus” (2). Quem disse que devemos falar sempre? Quem disse que sempre temos que estar ouvindo algo ou alguém? Quem disse que devemos ter resposta para tudo? Feliz de quem conheceu a força do silêncio!

Quantas coisas o próprio Jesus aprendeu de seu pai José! Sim, pois em sua humanidade Nosso Senhor teve que aprender muita coisa, como todo ser humano. Além disso, foi com o seu “pai” que aprendeu a profissão de carpinteiro. Como não pensar em Cristo contemplando as virtudes de seu “pai”, a quem tanto certamente admirava? 

Que os santos pais da sagrada família de Nazaré, José e Maria, nos ajudem a acolher Cristo, com a mesma humildade, confiança e amor com que o acolheram, desde a notícia de sua chegada. 

São José, “guardião do trigo divino”, rogai por nós!

Maria, mãe de Cristo, rogai por nós!

(Pe. Anderson Santana Cunha)

(1) São João Paulo II, Exortação Apostólica Redemptoris Custos, 15 de agosto de 1989. (2) Bento XVI, Ângelus, 18 de dezembro de 2005.


TEXTOS PARA MEDITAÇÃO 

“O que podemos oferecer-te, ó Cristo, em troca de te fazeres homem por nós? Cada criatura vos testemunha a sua gratidão: os anjos a sua canção, os céus a estrela, os Magos as dádivas, os pastores a sua adoração, a terra uma caverna, o deserto uma manjedoura. Mas nós, oferecemos-te uma Virgem Mãe!”. Nós – isto é, toda a humanidade – te oferecemos Maria! (Oração da liturgia ortodoxa, citada pelo Frei Raniero Cantalamessa, Homilia IV de Advento, C: Creer para hacer una verdadera Navidad). 


Se aproxima o dia em que celebramos o que de mais importante já aconteceu na história da humanidade: um Deus que nasce como um homem para a nossa salvação. Como um autor escreveu, ao se referir-se àquela bendita noite, podemos nós repetir com ele, contemplando o presépio: “tudo é para em mim. Estou diante Dele: não há nada além Dele, na imensidão branca. Ele não diz nada, mas está lá … Ele é Deus que me ama” (J. Leclerq, Siguiendo el año litúrgico, Madrid 1957, p. 78). Ao contemplar o mistério do Natal não há como viver sem esperança, não há dificuldade capaz de superar essa alegria que esta festa nos faz recordar. 


Hoje a Igreja nos faz olhar à Virgem Maria e contemplar, ao escutar as palavras do anjos “Alegra-te cheia de graça!”, que naquele exato momento “acende-se para o género humano a esperança da salvação: uma filha do nosso povo encontrou graça aos olhos do Senhor, que a predestinou para ser a Mãe do Redentor. Na simplicidade da casa de Maria, numa aldeia pobre da Galileia, começa a cumprir-se a solene profecia da salvação” (Papa Bento XVI, Homilia, 14 jun 2008). 


A Palavra de Deus que nos é proclamada nos coloca diante da realidade da encarnação de Jesus. Não estamos falando de um mito, de uma suposição, de uma hipótese, mas de um fato: Deus nasceu como homem em Belém!