6º Domingo da Páscoa

O tempo pascal já está quase chegando ao fim. No próximo domingo contemplaremos a Ascensão do Senhor e na semana posterior celebraremos a solenidade de Pentecostes. E hoje, o Evangelho que foi proclamado, recolhe aquelas palavras inesquecíveis que São João ouviu na noite da última ceia. “Cristo, na véspera da sua morte, abre seu coração aos discípulos reunidos no Cenáculo. Dá-lhes seu testamento espiritual(1).

É interessante notar que no tempo pascal a Igreja volta várias vezes espiritualmente ao Cenáculo. E faz isso para ouvir com calma cada palavra dita pelo Esposo, para encontrar naquelas frases consolo nas tribulações, luz nas indecisões e forças para continuar a sua peregrinação.

Naquele belo diálogo, Nosso Senhor faz notar como é exigente o amor. Quem diz que ama, mas não é capaz de sacrificar-se pela pessoa amada, não ama de verdade. Ama aquele que dá a vida (cf. Jo 15, 13), ama aquele que sobe o seu calvário, ama aquele que abraça a sua cruz. Um bom exemplo, e também muito oportuno nesta dia, é o amor de mãe: um amor que não conhece limites. 

E que palavras são essas que ouvimos! “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. (Jo 15, 12). Convêm perguntar-nos: que amor é esse?

E por isso convido-vos a meditar essa desafiadora proposta de Jesus, contemplando a Eucaristia, como instituição perpétua desse amor e a reconhecer na oração e na obediência dos mandamentos como meios de cultivar a amizade com Jesus, cujo amor precisa ser conhecido por todos.

1. Eucaristia, amor sem fim

Não há melhor lugar para descobrir o que é o amor do que na Santa Missa. É no Santíssimo Sacramento que se perpetua o amor que se contemplou pendendo na Cruz e que se torna presente no Altar desta Igreja. O amor que venceu a morte, o amor que ressuscitou e que hoje encontra-se aqui, vivo para sempre. 

Na Eucaristia, o Senhor se entrega em nossas mãos. Quanta coragem! Por isso cabe-nos perguntar: o que passa o Senhor em nossos sacrários? Se é verdade que muitos o cercam com a delicadeza de sua presença e o bom odor de suas orações, também é verdade que no sacrário o Senhor também sente a indiferença de tantos que vivem como se Deus não morasse aqui, em nosso meio. 

Além disso, quantos riscos que o Senhor corre nas espécies Eucarísticas, sujeito a tantas espécies de sacrilégios e profanações. E faz isso tudo e fica assim exposto em permanente entrega, porque nos ama. De fato, na Divina Eucaristia entendemos o que significa aquelas palavras benditas pronunciadas na noite primeira Missa: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15, 13).

2. Oração e os mandamentos, a alegria de ser amigo do Senhor

Para corresponder a esse amor, além da devida preparação para participar da Santa Missa, somos chamados a cultivar essa amizade principalmente através da oração e da obediência aos mandamentos. E desta forma viveremos unidos ao Senhor desde já, para que um dia estejamos sempre Nele e com Ele. Daí então, nada e nem ninguém nos tirará a alegria que é estar com quem nos ama, como ninguém jamais nos amou

A oração é o meio através do qual cultivamos a nossa amizade com Jesus, que nos disse hoje que o que pedimos, o Pai nos dará. A eficácia da oração só se entende se compreendermos que através dela estamos unidos àquele que junto do Pai “é nosso eterno intercessor” (2).

Quando obedecemos livremente aos mandamentos, estamos também unidos a Cristo, que foi obediente até à morte e nos ensinou que só se ama quando se obedece na liberdade

3. Catequizar, um amor que precisa ser anunciado

Quem descobre esse amor, não o pode esconder. Por isso, Cristo nos escolheu para dar frutos, frutos que dure, e esse fruto é a caridade cristã que se traduz na obra de evangelização, através da catequese, ou seja, mediante a transmissão da fé através do qual a Igreja torna conhecido o amor do Senhor. Aos pais cabe primeiramente esta missão dentro do lar. 

É importante dizer isso: nós anunciamos Cristo não porque queremos convencer as pessoas de nossas ideias. O cristianismo não é uma ideologia. Anunciamos a fé católica porque esta é a proclamação da Verdade, foi Deus mesmo que nos confiou o dever de torná-la conhecida em todo o mundo. É isso que ouvimos nos Atos dos Apóstolos: Cristo amou a todos, e a nós cabe proclamar a eles essa notícia

Não fazemos isso por soberba. Tanto é verdade que São João, na epístola, insistiu que tomássemos consciência de que não fomos nós que amamos a Deus, foi Ele que tomou a iniciativa de vir ao nosso encontro e nos amar. Foi assim que a fé católica chegou até nós: como anúncio de Cristo crucificado, que se entregou por amor a nós e quer nos comunicar os efeitos da sua redenção, através da Igreja e dos Sacramentos

É oportuno concluirmos com uma oração: “Graças, Senhor, por esses divinos ensinamentos. Faz nosso coração arder com esse doce convite ao mandamento do amor. Ajude-nos a reconhecer a Santa Missa como o máxima experiência da vossa misericórdia, e a cultiva a oração e a observância dos mandamentos para aumentar a nossa amizade convosco; dai-nos também a coragem de anunciar ao mundo que vós sois o único Salvador!” 

Maria, mãe do divino amor, ajudai-nos!

(Pe. Anderson Santana Cunha)


(1) João Paulo II, Homilia, 28 de maio de 2000. (2) Prefácio da Páscoa III.

TEXTOS PARA MEDITAÇÃO

Texto 01: Mas como pode-se amar por um mandamento? Por uma ordem? Para entender as palavras do Senhor é preciso fazer uma distinção. Há ordens que se cumprem por obrigação, mas há mandamentos que nascem de uma escolha, feita de maneira livre. Para quem ama, o mandamento do amor é uma alegria, e para os outros, a quem aparentemente é uma submissão, se trata de uma norma impossível de ser vivida. Para quem ama como Cristo ensinou, o amor é uma escolha livre, não uma imposição. Esse é o verdadeiro significado de amor. 

Texto 02: Ao longo desse tempo litúrgico pascal a Igreja volta o nosso olhar para os Céus, a fim de que contemplemos a glória futura que nos é reservada. A esperança da vida eterna muito nos ajuda, seja diante das tentações, seja nas ocasiões de desânimo. Pensar em Cristo e na vida que nos aguarda, nos faz relacionar de uma maneira nova com as coisas passageiras deste mundo e também transfigura a forma como lidamos com as pessoas em nossa volta.

Dois temas são abordados: o amor de Deus e o nosso amor ao próximo. O amor do Senhor experimentamos de modo especial na Eucaristia, onde o sacrifício do calvário se torna permanente e o amor ao próximo expressamos principalmente quando levamos essa boa notícia aos corações aflitos e sem esperança, a obra missionária da Igreja é sua maior obra de caridade.