Paixão do Senhor

Nesta tarde, aos pés da Cruz, a nossa voz se cala e espantados nos prostramos diante de um mistério profundo. O silêncio nesta liturgia é marcante e a Palavra de Deus nos faz mergulhar num abismo de dor e sofrimento; e tudo isso coloca diante de nossos olhos provas indiscutíveis do amor de Deus por nós.

O que acabamos de ouvir é impressionante: Cristo, após uma noite toda de torturas agora está pregado num madeiro. Seu rosto está irreconhecível, todo cuspido e ensanguentado; seu corpo em “carne viva” está nu diante de todos!

Certas são essas palavras de um santo monge trapista:

“Se o mundo soubesse quanto se aprende aos pés da Cruz… Se o mundo soubesse que toda teologia, que toda mística e a ascética, que toda a filosofia escrita em mil anos, não serve para nada, se não se medita e se estuda aos pés da Cruz de Cristo”

S. Rafael Arnáiz Barón, Mi Cuaderno, 08 dez. 1936

Penso que poderíamos ver dois tipos de atitudes profundamente diferentes diante da Paixão do Senhor: de um lado uma multidão furiosa e manipulada; de outro lado vemos um recém convertido dando-nos grandes lições de fé. Convido-vos a observá-los:

1. A Multidão

Primeiramente vejamos a multidão. Eles têm três atitudes marcantes: gritam, ridicularizam e desprezam Jesus.

a) Eles gritam. Pergunta Pilatos: “Que mal ele fez?”, mas eles ao invés de responderem, gritaram mais alto: “seja crucificado!” (Cf. Mc 15,12). Diante da Verdade Encarnada eles não têm argumentos e por isso gritam! E essa gritaria não terminou, começou no calvário e continua até hoje na voz, nos livros e nas ideologias daqueles que odeiam Cristo e os cristãos! Ainda hoje querem eliminar Jesus: das escolas, das universidades, dos lugares públicos, dos meios de comunicação, até da vida de nossas famílias – é o “crucifica-o!” gritado em nossos dias!

b) Eles zombam. Enquanto busca forças para continuar respirando por conta da asfixia, Nosso Senhor é zombado: “salva-te a ti mesmo!”, “se és o Filho de Deus, desce da cruz!”, “ se é verdade que Deus te ama, que ele te livre agora!”. São as mesmas palavras do demônio na tentação do deserto: “se és Filho de Deus…” (Mt 4,3). E Cristo também continua sendo zombado! É escarnecido por aqueles que usam seu nome para ganhar dinheiro; é zombado em filmes e exposições de arte; é ridicularizado inclusive dentro da própria Igreja por aqueles que não creem Nele de verdade.

c) Eles o desprezam. Diz-nos S. João que eles gritaram: “Este não, mas Barrabás!” (Jo 18,40). Ao ouvir o relato da paixão podemos pensar: “se eu estivesse lá jamais faria isso!”. Mas esta escolha por “Barrabás” fazemos todas as vezes que optamos pelas criaturas ao invés do criador.

Isto é o pecado: escolher as coisas ou as pessoas ao invés de Deus.

2. O convertido

Agora voltemos nossa atenção para Dimas, o bom ladrão! Esse, que havia sido um malfeitor, nesta tarde nos ajudará compreender três lições sobre o mistério da Cruz:

a) Sofrimento santifica: Em resposta ao ladrão que desafiam Cristo a descer da cruz, ele disse: “Para nós é justo sofrer” (Lc 23,41). Não se trata apenas da tentativa de defender Jesus, aquelas palavras nos ajudam a encontrar o sentindo verdadeiro do “abraçar a cruz”!

São João Paulo II na última Páscoa da sua vida não pode estar presente na tradicional Via Sacra do Coliseu, mas do seu quarto ele a acompanhava. E durante toda a oração as câmeras o registram sentado abraçado a uma cruz! Assim deve viver todo cristão: oferecendo as dores e os incômodos, sem desviar o rosto dos sofrimentos. (cf Is 50,6).

b) Morreu em nosso lugar: Disse Dimas: “Ele não fez nada de mal” (Lc 23,41). É como se disse: Ele é inocente, nós somos culpados! Nós aqui podemos ir além e dizer: Ele morreu por mim! Ele sofreu o que eu deveria sofrer! Aqui vemos a semente de conversão: o ladrão sente remorso de seus crimes ao ver Cristo crucificado e ao mesmo tempo se enche de esperança e lhe pede o céu!

c) Jesus é Rei! Quanta confiança naquelas palavras ditas entre gemidos de dor: “Lembra de mim quando entrares no teu reino” (Lc 23, 42). Como será feliz aquele que todos os dias reconhecer o reinado de Jesus acreditando nas verdades por Ele reveladas e ensinadas por sua Igreja. É o 2º pedido da oração dominical: “Venha o teu Reino!”.

Amados irmãos, depois de contemplar essa cena eu vos convido a ouvir as palavras de uma antiga homilia na qual o autor imagina as palavras de Jesus Ressuscitado ao encontrar-se com Adão na mansão dos mortos:

“Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. (…) Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte”.

2ª Leitura, Ofício de Leitura do Sábado Santo

Não é possível encerrar essa reflexão sem olhar para Maria. Diz o evangelista: Junto a Cruz de Jesus estava a sua mãe, em pé! (Cf Jo 19, 25). Que Nossa Senhora, virgem das Dores, nos conceda graças para compreender o que o mistério da Cruz nos ensina!