Quarta-feira de Cinzas

As primeiras palavras da profecia de Joel resumem bem qual é o convite que o Senhor nos faz neste tempo Santo da Quaresma: “voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2, 12). Hoje iniciamos um belo caminho de penitência e renovação espiritual cuja meta é a noite santa da Páscoa do Senhor

Através da Quaresma, a Igreja, nossa mãe, nos preparar para a Páscoa. Nos permite este “retiro” (de fato a Quaresma é um grande retiro para todos os católicos) para que, na noite Santa da Ressurreição do Senhor, possamos renovar o nosso batismo, não como um simples repetição de um ato ritual, mas como uma verdadeira regeneração.

Tudo isso para que em nós se realize o pedido que foi apresentado pelo salmista: “Dai-me de novo a alegria de ser salvo” (Salmo 50, 14). Para que naquela noite nós possamos também dizer: o Senhor ressuscitou de verdade! Eu pude experimentar isso na minha vida, pois Ele venceu o mal (o pecado, o vício) ao qual eu estava acorrentado!

1. Para que serve a Quaresma?

dois motivos pelos quais existe este santo tempo litúrgico: deixar o pecado e voltar-se para Deus.

Quaresma é tempo de abandonar o pecado. E aqui vale muito a pena recordar uma instrução de Santo Agostinho: devemos tomar cuidado, não só com os pecados graves, mas também com aqueles que chamamos de veniais (ou leves) pois, “se nos descuidamos, eles proliferam e produzem morte” (1). 

Quaresma é tempo de voltar para o Senhor, e a Igreja fará todo o possível para isso aconteça conosco, e o fará colocando à nossa disposição gestos concretos de caridade, atos litúrgicos piedosos (como a Via Sacra), a graça superabundante do sacramento da confissão e nos alimentando com a Divina Eucaristia.

Este é um tempo de reconciliação com Deus, como disse S. Paulo. Não adiemos a nossa volta para os braços do Pai: “é agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6, 2).

2. O que significam as cinzas?

Que sinal mais profundo, mais catequéticos, poderíamos ter nesta missa do que as cinzas? Quando elas forem impostas em nossas cabeças lembraremos: da fragilidade de nossa vida; de que um dia morreremos; de que um dia passarão definitivamente as nossas ilusões (do dinheiro, da fama e do poder) e elas se tornarão pó; de que sem Deus (o Criador) não somos nada; de que este é um tempo de penitência

As duas frases que a liturgia coloca nos lábios do sacerdote ao distribuir as cinzas resumem o sentido deste símbolo litúrgico: “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” (Cf. Gn 3, 19) ou “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). 

3. Armas para o combate espiritual

Para viver a Quaresma são colocadas em nossas mãos algumas armas espirituais. Eis as armas para o nosso combate: a oração, o jejum (penitência) e a caridade

A oração é para aumentar a nossa amizade com Deus, para que ouvindo-o, Suas palavras orientem nossas vidas. A caridade feita em socorro de nossos irmãos que passam necessidade, será um salutar remédio contra o nosso egoísmo. Por fim, pelo jejum e pelas as mortificações, aprenderemos a dominar os maus instintos e a colocar freios em nossos pecados e vícios. 

As mortificações que viveremos mais intensamente neste período não são um culto ao sofrimento, mas mostram a nós mesmo o que a graça de Deus pode fazer conosco! Se sou capaz, com a ajuda divina, de vencer a fome através do jejum, da mesma forma serei forte o suficiente (pela graça de Cristo) para não cair nas tentações ou voltar para os vícios

É importante que todos façamos para a quaresma um plano de vida espiritual. (Orações, penitências, atos de piedade…). De modo especial deixemos que a Palavra de Deus nos ilumine. Talvez um bom compromisso quaresmal a ser assumido é aquele de ler, todos os dias da Quaresma, um capítulo (ou mais) de um dos livros da Bíblia. 

E este caminho de volta para o Senhor passa pela penitência, pela busca da confissão sacramental, pelo estabelecimento de bons propósitos para a vida nova. Não nos esqueçamos de buscar a confissão nesta Quaresma!

Por fim, vos recordo um detalhe muito bonito deste início da Quaresma: hoje nós oferecemos juntos, unidos com toda a Igreja, as mortificações do jejum e da abstinência. Que grande graça irmãos: entraremos numa batalha espiritual, e não vamos sozinhos, toda a Igreja irá conosco, e não só os irmãos da terra, mas também aqueles que já estão no Céu! 

Que neste santo caminho para a Páscoa, nos acompanhe a Virgem Maria, mãe dos discípulos de Jesus. 

Uma Santa e fecunda Quaresma a todos!

(Pe. Anderson Santana Cunha)

(1) S. Agostinho, In Io. Evang. 12, 13, 35.