A oração do início da Santa Missa fala-nos da alegria que sentimos pela “renovação espiritual” da Páscoa. E para que seja possível viver essa renovação espiritual em nossas vidas, este domingo o Senhor nos fala da experiência do encontro com dois de seus discípulos. É também o nosso encontro com Ele!
Antes de falar sobre os ensinamentos principais do Evangelho, observem uma coisa: a crise de fé destes discípulos, no início do Evangelho, é muito semelhante ao drama de muitas pessoas, que dizem: “nós esperávamos tanto de Cristo!”. Se por um lado vemos crescer a indiferença religiosa daqueles que vivem como se Deus não existisse, crescem também o número daqueles que deixam a fé ou busca seitas, porque pensavam que sendo católicos não ficariam doentes, não perderia ninguém da família e que sofrimento nenhum os atingiria. E quando foram surpreendidos por qualquer mal, desistiram de tudo e foram embora, como aqueles dois.
Será que mesmo depois destas crises a humanidade poderá encontrar novamente a fé? Sim, sem dúvida, mas para isso é preciso ouvi-Lo falar! Deixem Cristo falar!
Ouçam as verdades que Ele diz através da fé católica, vejam que Ele tem razão, e sintam seus corações se abrasarem; assim poderemos nos aproximar de sua mesa, crendo em Sua presença real na Eucaristia, e recuperar nossa fé, a esperança e o amor.
Para vivermos de verdade a experiência de renovação espiritual é preciso ouvi-Lo e comungá-Lo, não de qualquer jeito, mas da maneira certa. Falemos, pois, destes dois ensinamentos de Jesus neste domingo pascal.
1. Jeito certo de ler a Bíblia
“E, começando por Moisés e passando pelos profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito Dele” (Lc 24,27). A Bíblia tem uma maneira certa de ser lida e compreendida. E para isso deve-se aprender duas coisas: Cristo está em toda a Bíblia e só Ele pode nos explicá-la corretamente!
a) Cristo está em toda a Bíblia: Depois dos discípulos relatarem o aparente fracasso, Jesus retomou a Escritura com eles. É assim que S. Pedro na 1ª Leitura recordou um salmo que fala de Cristo (cf. At 2,25-28). De fato Jesus já havia dito: “Examinai as Escrituras, elas falam de mim!” (Jo 5,39). Assim também lemos numa antiga homilia de Páscoa:
“Foi ele que tomou sobre si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel; amarrado de pés e mãos em Isaac; exilado de sua terra em Jacó; vendido em José; exposto em Moisés; sacrificado no cordeiro pascal; perseguido em Davi e ultrajado nos profetas”.
2ª Leitura do Ofício de Leitura da Quinta-feira Santa
b) Cristo é quem explica a Bíblia: Não basta ler a Bíblia, é preciso ouvir Cristo nos explicar. E como isso acontece? Quando escutamos a Igreja explicar as Escrituras! São verdadeiras as palavras de Jesus ao colégio apostólico: “Quem vos ouve, a Mim ouve!” (Lc 10,16). O Senhor nos falar pelos ensinamentos da Igreja, pela voz dos seus pastores, pelas orações litúrgicas e pela vida dos santos.
Se não conhecemos o Senhor, se não ouvimos suas palavras, logo nos faltará fé, esperança e o mais importante: o amor. A falta destas virtudes nos deixará cegos, incapazes de ver além das aparências deste mundo e estaremos enfim mergulharemos na tristeza e no desânimo. Guardai isto: Crer não é sentir, é amar!
2. Jeito certo de comungar a Eucaristia
Na experiência dos discípulos de Emaús se vê toda a estrutura da Santa Missa: ouvimos sua Palavra e depois comungamos do seu Pão. Não adianta só ouvir a Palavra, não adianta só arder o coração, é preciso sentar-se a Mesa com Ele!
A Eucaristia, irmãos, não é um “símbolo” ou um teatro de “faz de conta”, que pena de quem pensa assim, pois sempre se sentirá abandonado… A Eucaristia é o Corpo e Sangue do Senhor, o “alimento dos peregrinos” nesta viagem para o Céu!
Neste tempo em que muitos estão privados da Santíssima Eucaristia, permitam-me falar sobre a comunhão espiritual, que todos devemos fazer, inclusive quando se comunga sacramentalmente! Comunhão espiritual não é simplesmente imaginar que se está comungando, mas é permitir que nossa inteligência seja iluminada por esta Presença Real. E para fazer uma boa comunhão espiritual é preciso: (1º) se preparar devidamente, (2º) fazer atos de fé enquanto se comunga e (3º) dar ação de graças após recebê-Lo.
A Eucaristia pode nos transformar! Sem dúvida, “a nossa participação, disse S. Leão Magno, no corpo e no sangue de Cristo age de tal modo que nos transformamos naquele que recebemos.” (S. Leão Magno, Sermo 12, De Passione, 3, 7: PL 54,375). Assim também a Palavra de Deus nos converte, e isso vemos no Evangelho: Jesus tomou refeição com eles “para nos fazer compreender que devemos praticar as obras de misericórdia e a hospitalidade, isto é, para dizer-nos que não basta ler e escutar a Palavra de Deus se depois não a levamos à prática” (Franciscano anônimo do século XIII, Meditazione sulla vita di Cristo, Roma, 1982, p. 166).
Assim como o Senhor ressuscitou a fé, a esperança e o amor daqueles discípulos, Ele também hoje, nesta Missa, quer-nos “resgatar da vida fútil” como disse S. Pedro na epístola (cf. 1Pd 1,18), ou seja, da vida longe Dele. Roguemos a Jesus que nos conceda a graça de ouvi-Lo e de comungá-Lo bem com abundantes frutos. É certo que ouvindo a Sua Palavra e comungando Seu Corpo e Seu Sangue nunca nos sentiremos sozinhos!
Fica conosco Senhor!
(Pe. Anderson Santana Cunha)